{"id":661,"date":"2024-05-06T13:41:11","date_gmt":"2024-05-06T13:41:11","guid":{"rendered":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/?page_id=661"},"modified":"2024-05-14T17:23:44","modified_gmt":"2024-05-14T17:23:44","slug":"antonio-pires","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/antonio-pires\/","title":{"rendered":"Ant\u00f3nio Pires"},"content":{"rendered":"<h2>O Fogo e as cinzas<\/h2>\n<p><strong><em>Ant\u00f3nio Pires<\/em><\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 muitos milhares de anos, algures na Europa, uma tribo habitava uma aldeia cujo centro era completamente ocupado por uma fogueira enorme, t\u00e3o grande que as suas chamas se avistavam a muitos quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia. Era \u00e0 sua volta que os homens e mulheres da tribo se reuniam para conversar, discutir, cantar, contar anedotas e mentiras, namorar, exagerar fa\u00e7anhas de guerra ou de ca\u00e7a, transmitir as hist\u00f3rias e as lendas do seu povo, mexericar, dan\u00e7ar e, acima de tudo, para se aquecerem. Mas, apesar daquela fogueira os aquecer, os homens e mulheres da tribo n\u00e3o a usavam para mais nada. Continuavam a comer a carne, o peixe e o trigo crus, n\u00e3o usavam o fogo para fazer outras fogueiras ou tochas com as quais poderiam iluminar-se noutros locais ou afastar os animais selvagens. N\u00e3o o utilizavam para tornar as pontas das setas mais fortes ou para temperar o ferro. N\u00e3o o usavam sequer para cozer objectos de barro ou furar mais facilmente os ossos e deles fazer flautas e adornos.<\/p>\n<p>Muitos dos homens e mulheres da tribo at\u00e9 sabiam, ou desconfiavam, que poderia ser assim, mas n\u00e3o se atreviam a faz\u00ea-lo por uma raz\u00e3o simples: aquela fogueira era sagrada. Acreditava-se que a fogueira estivera l\u00e1 desde sempre e que teria sido criada por um deus desconhecido, que num dia long\u00ednquo teria soprado o fogo pela sua boca e ali tinha feito nascer a maior e mais bela fogueira de todo o mundo que eles conheciam. Na realidade, um mundo que cobria tr\u00eas ou quatro rios, um lago, uma cordilheira de montanhas e alguns vales vizinhos. Logo, ningu\u00e9m se aproximava da fogueira, antes se detendo a alguns metros, tanto por temor como por rever\u00eancia e respeito. Os homens e as mulheres da tribo ofereciam \u00e0 fogueira preces e alguns sacrif\u00edcios, imploravam-lhe para que nunca deixasse de os aquecer, para que se mantivesse para sempre acesa, que os protegesse e nunca os atacasse com as suas labaredas. Como em muitas outras manifesta\u00e7\u00f5es religiosas, assim como ningu\u00e9m sabia quem tinha acendido a fogueira, tamb\u00e9m ningu\u00e9m sabia como ela se mantinha acesa, forte, viva, enorme. Era um mist\u00e9rio, e assim permaneceria para sempre.<\/p>\n<p>At\u00e9 que, certo dia, alguns dos homens e das mulheres mais velhos da tribo repararam numa coisa nunca antes vista: a fogueira tinha diminu\u00eddo de tamanho. N\u00e3o era assim uma coisa muito evidente. Mas tamb\u00e9m todos os outros, quando alertados pelos mais velhos, perceberam que a fogueira tinha perdido parte do seu fulgor, da sua for\u00e7a, do seu calor. Estranharam, culparam-se &#8211; ser\u00e1 que o deus que se esconde na fogueira estaria zangado com eles? -, ficaram preocupados e temerosos pelo seu destino. Mas nada fizeram: ningu\u00e9m se atrevia a mexer no fogo sagrado; e nem sequer tentaram aliment\u00e1-lo. \u00c9 certo que, por essa altura, aumentaram as ora\u00e7\u00f5es e os sacrif\u00edcios rituais perto da fogueira. Javalis, lebres, ouri\u00e7os, esquilos, lobos e at\u00e9 um enorme urso foram mortos para aplacar a eventual ira da fogueira e pedir aos deuses para que ela continuasse acesa e para que os aquecesse a eles e \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras. Mas isso n\u00e3o resultou: ao longo dos dias, das semanas, dos meses seguintes, a fogueira come\u00e7ou a mirrar, a desaparecer, a ser mais um monte de brasas e de cinza do que propriamente um madeiro ou uma fogueirita m\u00e9dia. Os anci\u00e3os da tribo, os chefes e os feiticeiros come\u00e7aram ent\u00e3o a culpar-se uns aos outros e a culpar terceiros &#8211; as tribos inimigas, as mulheres, os jovens, os deuses e outras for\u00e7as ocultas &#8211; pela calamidade que se tinha abatido sobre o seu povo. E a fogueira l\u00e1 continuava, desaparecendo mais e mais e mais a cada dia que passava. At\u00e9 que, numa noite escura &#8211; uma noite que era ainda mais escura porque a fogueira j\u00e1 n\u00e3o brilhava como tinha brilhado antes -, alguns membros da tribo, alguns mais velhos, outros mais novos, homens e mulheres, rapazes e raparigas, tomaram uma decis\u00e3o: iriam roubar algumas brasas da velha fogueira e com elas iriam atear uma nova fogueira. E assim fizeram.<\/p>\n<p>Nessa mesma noite, com as brasas que tinham roubado, o grupo rebelde acendeu uma nova fogueira, perto de onde estava a antiga. Era pequena, mas servia perfeitamente: aquecia-os e, para al\u00e9m disso, logo perceberam que com este fogo podiam cozinhar a carne e, de uns poucos gr\u00e3os de trigo, fizeram o primeiro p\u00e3o. E muitas outras coisas viriam a perceber no futuro. Mas, antes de esse futuro acontecer, nessa mesma manh\u00e3, muitos outros membros da tribo descobriram o que o grupo tinha feito e acusou-o de heresia pelo que fizeram e de blasf\u00e9mia pelo que, contestando, tinham dito em sua defesa. E foram expulsos da aldeia. Na nova aldeia que fundaram, a alguns quil\u00f3metros da original, acenderam uma nova fogueira que, n\u00e3o sendo t\u00e3o grande quanto a primeira, servia perfeitamente. Descobriram que, adicionando alcatr\u00e3o ou outros materiais gordos, a combust\u00e3o da madeira era mais eficaz; descobriram que, se se lhe juntassem alfazema, incenso ou rosmaninho, a fogueira adquiria outros cheiros e cores&#8230; E, apesar de j\u00e1 n\u00e3o ser uma fogueira sagrada &#8211; sabiam que tinham sido eles a ate\u00e1-la com as pr\u00f3prias m\u00e3os -, todos eles tinham por ela um respeito enorme e, apesar de j\u00e1 haver outras fogueiras em todas as casas e de in\u00fameras tochas iluminarem os caminhos ou ajudarem na ca\u00e7a, ainda era junto dessa fogueira comunit\u00e1ria que eles se juntavam para as festas e os folguedos.<\/p>\n<p>Na outra aldeia, a original, os que por l\u00e1 tinham ficado assistiam \u00e0 morte lenta, mas irrevers\u00edvel, da fogueira primordial. E que um dia acabou por se apagar definitivamente. Durante muitos anos, alguns dos homens e das mulheres da aldeia ainda l\u00e1 se deslocavam, reverentes, para contemplar as cinzas agora frias e recordar como aquela fogueira tinha sido bela. Outros esqueceram-se dela e habituaram-se a viver sem o seu calor. E outros foram pedir umas brasas \u00e0 aldeia vizinha.<\/p>\n<p>(conto inspirado no Mito de Prometeu e por uma frase do compositor Gustav Mahler &#8211; \u00abA tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 a transmiss\u00e3o do fogo e n\u00e3o a venera\u00e7\u00e3o das cinzas\u00bb; dedicado \u00e0 mem\u00f3ria de Jo\u00e3o Aguardela, transmissor do fogo que arde na m\u00fasica tradicional)<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Pires<\/p>\n<h3>Ant\u00f3nio Pires<\/h3>\n<p>Ant\u00f3nio Pires, DJ e jornalista de m\u00fasica, trabalhou no jornal BLITZ durante 20 anos, do qual foi Chefe de Redac\u00e7\u00e3o durante 12 anos. Publicou tamb\u00e9m textos no Se7e, Expresso, A Capital, Revista de Cinema, Face, Mini International e Autores. Realizou e colaborou em programas de r\u00e1dio na RUT e na NRJ. Frequentou durante tr\u00eas anos o Curso de Hist\u00f3ria da Faculdade de Letras de Lisboa e completou o Curso de Cinema da Escola Superior de Teatro e Cinema. D\u00e1 aulas de Hist\u00f3ria da Ind\u00fastria Discogr\u00e1fica na Restart, onde tamb\u00e9m leccionou Hist\u00f3ria do Espect\u00e1culo no S\u00e9c.XX. \u00c9 jornalista free-lancer, respons\u00e1vel pelo blog Ra\u00edzes e Antenas. Colabora com a revista Time Out Lisboa e o jornal \u00abi\u00bb. \u00c9 o autor do livro \u00abAs Lendas do Quarteto 1111\u00bb e tem textos publicados noutros livros: \u00abR\u00e1dio Macau: Livro Pirata\u00bb e \u00abContra Dan\u00e7as N\u00e3o H\u00e1 Argumentos\u00bb. Como DJ actuou em festivais como o FMM de Sines, MED de Loul\u00e9, Etnias, Mundo Mix, Mundo Dakar, Eco Fest, DocLisboa, Granitos Folk, FIDO e Voz de Mulher, assim como em locais como a Expo de Sarago\u00e7a, Contagiarte (Porto), Caf\u00e9Vinil (Sintra), MusicBox, Regueir\u00e3o dos Anjos, Santiago Alquimista, Love Supreme, Onda Jazz, Museu do Fado e Chapit\u00f4 (Lisboa).<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/raizeseantenas.blogspot.com\/\">http:\/\/raizeseantenas.blogspot.com\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Fogo e as cinzas Ant\u00f3nio Pires H\u00e1 muitos milhares de anos, algures na Europa, uma tribo habitava uma aldeia cujo centro era completamente ocupado por uma fogueira enorme, t\u00e3o &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":710,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_theme","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"class_list":["post-661","page","type-page","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/661","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=661"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/661\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":955,"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/661\/revisions\/955"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/710"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=661"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}