{"id":662,"date":"2024-05-06T13:41:11","date_gmt":"2024-05-06T13:41:11","guid":{"rendered":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/?page_id=662"},"modified":"2024-05-14T17:24:33","modified_gmt":"2024-05-14T17:24:33","slug":"manuel-halpern","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/manuel-halpern\/","title":{"rendered":"Manuel Halpern"},"content":{"rendered":"<h2>Foi Numa Quarta<\/h2>\n<p><strong><em>Manuel Halpern<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O dia em que me tornei campon\u00eas<br \/>\nPara <em>Jo\u00e3o Aguardela<\/em><\/p>\n<p>Foi numa quarta-feira que me decidi tornar campon\u00eas. Os carros estavam empoleirados nas \u00e1rvores e o homem da r\u00e1dio n\u00e3o parava de dar not\u00edcias de crimes contra a humanidade dos ant\u00edpodas do nosso mundo, onde n\u00e3o havia tr\u00e1fico, mas havia crimes.<\/p>\n<p>Sim, foi numa quarta-feira. Cheguei a casa e do\u00eda-me a sola do p\u00e9 de tanto pisar a embraiagem no p\u00e1ra-arranca-p\u00e1ra dos nossos dias. A gravata revoltara-se contra o pesco\u00e7o num chup\u00e3o vermelho e eu dei por mim a hidratar a pele com um daqueles cremes com que se besuntam os rabos dos beb\u00e9s.<\/p>\n<p>Nessa quarta-feira espreitei pela janela na esperan\u00e7a de ver o c\u00e9u, mas embora estivesse azul, ora a clarab\u00f3ia da marquise ora o pr\u00e9dio inamov\u00edvel que jazia \u00e0 minha frente, n\u00e3o me deixavam saber. Apenas vislumbrei uma vizinha que debru\u00e7ava o decote h\u00famido sobre a planta que regava. E foi ent\u00e3o que pensei, quem me dera ser campon\u00eas.<\/p>\n<p>Era quarta-feira. Desci \u00e0 loja e comprei uma enxada topo de gama, que prontamente assentei no ombro, como os camponeses fazem. Depois troquei o meu carro por uma carripana constipada, que tossia sem parar mal se ligava o motor, e tremia tanto que eu tinha de segurar o volante com as duas m\u00e3os como quem doma um cavalo bravo.<\/p>\n<p>O campo come\u00e7ava logo ali, onde terminava a cidade, e prolongava-se at\u00e9 ao come\u00e7o da pr\u00f3xima. Um homem de fartas su\u00ed\u00e7as disse-me que para chegar ao campo tinha que virar na segunda a esquerda, depois da bomba gasolina.<\/p>\n<p>Quando cheguei ao campo instalei-me na casa de campo. Pousei a enxada no alpendre, olhei para o c\u00e9u exageradamente azul e pensei, como \u00e9 boa a vida no campo.<\/p>\n<p>Naquele dia decidi, amanh\u00e3 cavo. Pousei discretamente a enxada na casa das ferramentas e fui at\u00e9 ao caf\u00e9 da aldeia, onde os camponeses t\u00eam conversas campestres de final de tarde. Na carripana ia a ouvir as recolhas de m\u00fasica tradicional portuguesa de Michel Giacometti e Jos\u00e9 Alberto Sardinha. Como o carro tossia cada vez mais alto, eu aumentava o volume at\u00e9 ensurdecer os p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>No caf\u00e9 da aldeia havia m\u00fasica todas as quartas-feiras. Ent\u00e3o eu tirei da carripana a viola braguesa, disposto a impressionar as hostes com um inesperado dedilhado urbano. Mas por l\u00e1 estava tudo em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Sentei-me ao balc\u00e3o e pedi um baga\u00e7o, enquanto observava a mais bela camponesa, branca e roli\u00e7a, com bra\u00e7os anchos e peitos folgados, como as camponesas se querem. O que bebes?, perguntei-lhe numa timidez provinciana. Um Bloody Mary, disse-me, pouco sumo e muito gelo, para n\u00e3o atrair mosquitos.<\/p>\n<p>Ao segundo gole vermelho, perguntou-me, remexendo a palhinha, O que fazes hoje \u00e0 noite?<\/p>\n<p>Olho a lua, respondi.<\/p>\n<p>E o que \u00e9 que a lua tem de especial? A lua \u00e9 sempre a mesma, est\u00e1 ali h\u00e1 s\u00e9culos, ora cresce ora diminui, ora \u00e9 tapada pelas nuvens ora fica \u00e0 mostra. A lua \u00e9 sempre a mesma coisa, n\u00e3o h\u00e1 nada para ver.<\/p>\n<p>Senti-me incomodado com a minha excentricidade urbana. Nunca me tinha ocorrido que a lua se pudesse tornar em algo t\u00e3o desprovido de sol.<\/p>\n<p>Porque n\u00e3o vens antes ao Ex-Libris?<\/p>\n<p>O Ex-Libris era a discoteca do campo. E eu substitu\u00ed a Lua pelo Ex-Libris. Senti-me envergonhado por levar a minha carripana ferrugenta, enquanto os outros usavam Mercedes, Rovers, Jeeps.<\/p>\n<p>A camponesa chegou de Smart. Usava \u00f3culos escuros mosca, cal\u00e7as largas, uma t-shirt apertada e, para ser franco, j\u00e1 n\u00e3o me parecia t\u00e3o roli\u00e7a quanto isso. Levou-me pela m\u00e3o numa floresta de beats e luzes, na qual eu certamente me perderia se n\u00e3o acompanhado. Depois ela entrou no cub\u00edculo do DJ e rodou os pratos do gira-discos como quem est\u00e1 na safra. O p\u00fablico, devidamente drogado, mostrava o seu contentamento, com longos uivos e bra\u00e7os bailantes no ar. Passava um tecno-subversivo, com mais beats do que a pulsa\u00e7\u00e3o de um hiperactivo.<\/p>\n<p>Ao princ\u00edpio julguei aquele som insuport\u00e1vel, mas quando a camponesa me forneceu uma ampola artesanal para a boa disposi\u00e7\u00e3o, entrei no ritmo, e apercebi-me da beleza das semifusas monocrom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Acab\u00e1mos a noite em casa dela. Recostados num sof\u00e1 de poli\u00e9ster. Eu com a minha viola braguesa e ela com uma caixa de ritmos da Korg, capaz de transformar o canto dos p\u00e1ssaros no som de uma locomotiva nervosa. Vamos gravar uma demo, prop\u00f4s-me. Eu hesitei. Mas quando voltei para a carripana, as recolhas do Giacometti sobre a batida do carro constipado pareceram-me ainda mais magn\u00edficas.<\/p>\n<p>Peguei na enxada e fiz-me \u00e0 cidade, sorrindo sem dar conta, enquanto guiava. Cantarolava as m\u00fasicas que ouvia e ia tomando notas com a mente. L\u00e1 em cima, a lua da cidade estava encoberta por uma mancha de smog que lhe dava uma tonalidade p\u00farpura, que nem a urze da plan\u00edcie.<\/p>\n<p>Manuel Halpern<br \/>\nMar\u00e7o de 2009<\/p>\n<h3>Manuel Halpern<\/h3>\n<p>Jornalista e cr\u00edtico do Jornal de Letras, Artes e Ideias, Manuel Halpern escreve preferencialmente sobre m\u00fasica e cinema, al\u00e9m de manter, desde h\u00e1 dez anos, a coluna fixa O Homem do Leme. Pop\u00f3mano, cin\u00e9filo, bloguer, \u00e1vido coleccionador de CD e DVD, e autor de booklets, nasceu em Lisboa no ano da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril. Tem duas filhas, duas pe\u00e7as de Teatro (O Segredo do Teu Corpo e Palco \u2013 Quimera, 2006), um ensaio sobre fado (O Futuro da Saudade \u2013 O Novo Fado e os Novos Fadistas, Dom Quixote, 2004). Licenciado em Comunica\u00e7\u00e3o Social, pela Universidade Cat\u00f3lica, com p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Cr\u00edtica de Cinema e M\u00fasica Pop, na Faculdade Ramon Lull de Barcelona, colaborou, entre outros, com a Vis\u00e3o, P\u00fablico, Blitz, Antena 2, Di\u00e1rio de Not\u00edcias e Corriere della Sera. Nas horas vagas \u00e9 DJ, integrando a dupla de som e imagem Ouvido Visual. Fora de Mim \u00e9 a sua primeira fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/forade.blogspot.com\/\">http:\/\/forade.blogspot.com\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi Numa Quarta Manuel Halpern O dia em que me tornei campon\u00eas Para Jo\u00e3o Aguardela Foi numa quarta-feira que me decidi tornar campon\u00eas. Os carros estavam empoleirados nas \u00e1rvores e &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"class_list":["post-662","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/662","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=662"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/662\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":956,"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/662\/revisions\/956"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aguardela.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=662"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}